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Blog de Antonio Noberto


Um dia no quilombo

 




Escrito por antonionoberto às 20h44
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Um dia no Quilombo

Com dois pesquisadores estrangeiros

*Antonio Noberto

O Baixo Parnaíba é guardião de bom pedaço da história do Movimento da Balaiada, deflagrado em 1838. O início da revolta aconteceu na então Vila da Manga do Iguará, atual município de Nina Rodrigues, a nove quilômetros de Vargem Grande. Àquele tempo, este era apenas um distrito da Vila da Manga. Ainda hoje a memória oral conserva alguns lugares do importante evento: o morro localizado na barra do rio Iguará, em Nina Rodrigues; o mercado público de Vargem Grande; o povoado Olho d’Água; o morro do Arrebentado; povoados Trincheiras e Cosmo; a Cadeia Velha de Itapecuru Mirim, etc. A Prefeitura Municipal de Vargem Grande já discute a possibilidade de criação de um memorial que abrigue a história de tão marcante evento.

A história do negro na região, por outro lado, não se destaca apenas por ter sido o marco inicial do Movimento encabeçado por Negro Cosme, Raimundo Gomes e Manuel Balaio, vez que abriga muitas das mais de quatrocentas comunidades remanescentes de quilombos existentes no Maranhão.

Nesta primeira semana de abril, mais precisamente no dia três, solicitado pelo francês Thierry e pela pesquisadora italiana Regina Giampietro, que pretendiam conhecer algum quilombo do Maranhão, fomos às comunidades Rampa e Pequi da Rampa, localizadas a menos de trinta quilômetros do perímetro urbano de Vargem Grande - MA. Regina faz doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, e realiza pesquisa sobre educação em comunidades remanescentes de quilombo e acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra visando defender tese sobre o assunto.

A escolha dos dois lugares não foi aleatória, posto que, no caso do povoado Rampa – comunidade pioneira da região –, o nome já sugere resistência, pois para chegarmos ao mesmo faz mister subir uma íngreme ladeira, uma verdadeira rampa, que nem todos os veículos conseguem transpô-la. Nós o fizemos com a ajuda do experiente e veterano guia Otacílio, recomendado a dedo por ser um comerciante de gado e, portanto, exímio conhecedor de povoados, caminhos e veredas do município. No Pequi da Rampa, distante catorze quilômetros da Rampa, percebe-se considerável nível organizacional. A comunidade negra vive, em pleno século vinte e um, uma inimaginável espécie de socialismo. Com a ajuda da Prefeitura Municipal de Vargem Grande, do Governo do estado do Maranhão e da União a comunidade mantem projetos agrícolas onde cultiva couve, repolho, pepino, maxixe, quiabo, abóbora, mandioca, macaxeira, dentre outros, vendidos no próprio município e também exportados para Chapadinha, São Benedito do Rio Preto, Anapurus e vários outros. A comitiva, depois de demorada entrevista ao professor e morador da comunidade, Raimundo “Raí” Fernandes, ao presidente da Associação Juarez Fernandes, à agente de saúde Maria Rosete e ao membro-sócio Ivanilson, se dirigiu ao campo de plantação e pode literalmente “provar” in loco alguns dos produtos cultivados. Entre uma mordida na melancia e outra no mamão papaia, o grupo caminhava na roça, observava as estufas e ouvia dos produtores os relatos pródigos da fartura, oriunda do incansável trabalho dos moradores do Pequi da Rampa e da parceria com o governo nas três esferas. Existe um brejo próximo à lavoura, que, no entanto, a água escasseia no verão, por isto o governo do estado está construindo um açude no local para suprir definitivamente qualquer carência. Enquanto uns cuidam e cultivam o campo, outros selecionam e encaixotam os produtos, e existem outros ainda que viajam e fazem o serviço de promoção e venda. A arrecadação vai para a associação de moradores que, por sua vez, divide proporcionalmente aos moradores. Na comunidade, vale dizer, não existe comércio, os mantimentos são comprados na cidade. Não existe sequer um bar ou uma bilhar, coisa facilmente encontrada em qualquer outra comunidade. A diversão são as festas – fomos convidados para a próxima, dia 31 de maio –, as partidas de futebol no campinho, que fica no centro da comunidade, e uma cerveja ou cachacinha no fim do dia para aquecer o corpo, a final “ninguém é de ferro!”.  Os índices de criminalidade, segundo o associado e membro do Conselho, Wilson Fernandes, é praticamente zero. As raríssimas ocorrências são de motivação externa, praticadas por alguém de outro lugar. Os problemas do povoado, ao contrário de qualquer outra comunidade, não vão desaguar na polícia, são resolvidos entre eles, pelo Conselho comunitário. Outra curiosidade é que se alguém vai embora do povoado não pode vender a casa (todas são de telha e tijolo), pois é propriedade da comunidade. Outro morador ocupá-la-á. O líder comunitário é eleito de dois em dois anos, com direito a apenas uma reeleição.

Após a visita ao campo, a comitiva foi gentilmente convidada para um delicioso almoço na casa de Wilson Fernandes. No cardápio, galinha caipira (do próprio quintal, é claro!), e toda sorte de guloseimas produzidas na comunidade: farinha d’água sequinha, pepino, couve, pimenta, maxixes (enormes, os maiores que já vimos), quiabo, etc. Detalhe: tudo sem agrotóxico, pois os produtos utilizados na borrifação da lavoura são feitos por eles mesmos a partir de plantas e ervas cultivadas no próprio local. A exceção à mesa ficou por conta do arroz e da Psiu cola, que são produzidos fora. Ao final, o anfitrião não aceitou pagamento do farto almoço e ainda nos ofertou alguns produtos da lavoura. Pagamento, nem pensar! Faz jus ao modelo do lugar, pois ali “não existe comércio”. Thierry lembrou que esteve na Costa do Marfim e Cabo Verde e lá aconteceu a mesma coisa. Foi um dia muito feliz para a comitiva e para a comunidade, pois quase tudo no quilombo Pequi da Rampa lembrava um pouco da magia e da generosidade do africano. A comunidade saiu da condição de mero consumidor com o incentivo inicial da organização humanitária da igreja Católica Cáritas Brasileira. Hoje é um belo modelo exportador.

Em fins do ano de 2010, outros dois franceses, os etnólogos Jean-Yves Loude e a esposa Viviane, estiveram visitando alguns dos quilombos do estado. Jean-Yves é escritor e publicará uma obra sobre a resistência no Brasil. Ele reserva um capítulo ao Maranhão, onde abordará a história da Balaiada, os quilombos, a abolicionista Maria Firmina dos Reis, dentre outros. Para tal, viajou diversos municípios pesquisando a história das comunidades, incluindo Frechal em Mirinzal, Damázio em Guimarães, Santana dos Pretos em Alcântara, além de realizar diversas entrevistas com líderes comunitários e pesquisadores de Itapecuru Mirim, Vargem Grande e Nina Rodrigues.

A gente se vê!

*Turismólogo, pesquisador e sócio-efetivo do IHGM.



Escrito por antonionoberto às 20h33
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CEMITÉRIO: MUSEU A CÉU ABERTO? PARTE II

Continuação do artigo publicado no sábado passado, 24 de março.

Texto publicado no suplemento cultural e literário Guesa Errante do Jornal Pequeno, 31 de março de 2012.

Da nobreza maranhense, destacamos o jazigo do médico e político Dr. Carlos Fernando Ribeiro, o célebre Barão de Grajaú, que governou o Maranhão na época do Império, falecido em 10 de setembro de 1889 e sepultado envolto na opa da Irmandade do Senhor dos Passos, e de seu filho Carlos Fernando Vianna Ribeiro, falecido em 25 de abril de 1895, e também de Dona Ana Rosa, a malvada baronesa de Grajaú que, tresloucada e cruelmente, matou um escravinho seu à garfada, o túmulo da Baronesa de São Bento, e juntamente o seu neto historiador Jerônimo de Viveiros, em uma carneira ou carneiro, sepultura que se localiza na parede, coberta por uma pedra mármore branca onde estão esculpidos os nomes de vários membros da Família Viveiros ali sepultados. Há, ainda, o jazigo de mármore branco encimado por uma imagem de Nossa Senhora da Conceição da família de José Joaquim Seguins de Oliveira, que, titulado barão de Itapary em 1888, no ocaso do Império, incorporou o título ao nome de família.

Muitos epitáfios interessantes podem ser encontrados no Gavião, inclusive alguns escritos em línguas estrangeiras, como este em inglês:To the Dear Memory of Wilfrid James Hampton only son of James and Maude Hampton, Southfields, London. Born February 17th 1901. Died February 15th 1928. (À querida memória de Wilfrid James Hampton filho único de James e Maude Hampton, Southfields, Londres. Nascido em 17 de fevereiro de 1901 e faleceu em 15 de fevereiro de 1928). Recorrendo ao Jornal a Pacotilha, temos a notícia do falecimento do jovem bretão que nos esclarece a sua identidade e o que fazia em São Luís: Luto – W. J. Hampton – Faleceu hontem às 18 horas, no Olho d’Água para onde fora, há pouco transferido, o telegrafista da Western Telegraphic Co. Ltd. W. J. Hampton. O extincto, que era de nacionalidade inglesa, dispunha de largo círculo de amizades nesta capital, onde se impusera pelas suas qualidades de espírito e coração. Era filho do sr. James George Hampton, residente em Kent ( Inglaterra). Contava apenas 27 anos de idade. O enterro do malogrado cavalheiro realisou-se hoje às 8 horas, tendo sido o féretro transportado do logar onde se deu o óbito até a estação de bondes, em caminhão. Dahi em deante, mudado para a carreta, os colegas e inúmeros amigos do inditoso jovem acompanharam-lhe os restos mortaes ao Cemitério Municipal. Enviamos aos seus parentes os nossos sinceros pezares, extensivos aos seus colegas da Western e à distinta colonial inglesa aqui domiciliada. 

Eis um exemplo onde se colhem dados históricos quanto à presença de uma colônia ativa de ingleses mesmo depois do século XIX, período do apogeu da presença dos anglos no Maranhão em razão do comércio, quando São Luís teve um cemitério só para eles, o Cemitério dos Ingleses construído por volta de 1815, e localizado em frente à Igreja de São Pantaleão, onde hoje funciona uma escola pública. No início do século XX, a presença inglesa e americana devia-se, sobretudo, à Companhia de Telégrafos comandadas pelos ingleses e à Ullen Company, responsável pela iluminação e pelos bondes de nossa provinciana capital.

Sendo uma cidade de intenso comércio, uma das praças mais movimentadas do Brasil em fins do século XIX e início do XX, não é de estranhar o grande número de comerciantes sepultados no Gavião. Na alameda principal, está o jazigo do comerciante português Luiz Manoel Fernandes e sua Família, erguido como capela de mármore de Carrara em estilo neogótico, obra do escultor português António Moreira Rato. Luiz Manoel foi importante comerciante em meados e fins do século XIX e faleceu de beribéri, quando em viagem, na Bahia, sendo seu corpo transferido para São Luís, onde foi sepultado em seu jazigo. Sua filha, a maranhense Isabel Fernandes, veio a casar-se com o cônsul português e intelectual, um dos 12 apóstolos das letras fundadores da Academia Maranhense, Fran Paxeco. Do casal Fran-Isabel descende ilustre prole dentre as quais se destacam a sua filha Dra. Elza Paxeco Machado, primeira mulher a doutorar-se em Letras pela Universidade de Lisboa e sua neta Maria Rosa Pacheco Machado, Mestra em biblioteca e documentação, que ocupa atualmente uma cadeira de membro correspondente da Academia Maranhense, cadeira que foi ocupada por sua Mãe, a Dra. Elza. Registre-se que, Maria Rosa, bisneta de Luís Manoel Fernandes e neta de Fran Paxeco, é também filha do grande filólogo, dicionarista e arabista português Dr. José Pedro Machado, falecido em 2005. Jazigo de Luiz Manoel Fernandes e Sua Família.

Outros comerciantes e industriais sepultados no Gavião: Crispim Alves dos Santos, nascido em 1851 e falecido em 1905, Orfila Cavalcanti (1881-1922), que está em um jazigo adornado com um grande anjo de mármore branco esculpido pela afamada Marmoraria Carrara de São Paulo, Manoel Mathias das Neves, falecido em 20 de agosto de 1925, Joaquim Júlio Corrêa, nascido em 1857, em Portugal e falecido, em São Luís, em 1937, quando era o decano do comércio maranhense em um imponente jazigo de granito escuro, o industrial Cândido José Ribeiro, cujo jazigo é ornado com seu busto e Marcelino Gomes de Almeida.

Há, ainda, sepulturas de religiosos, como a do Monsenhor João dos Santos Chaves, falecido em 1948, antigo pároco da velha Igreja de Nossa Senhora da Conceição, localizada na Rua Grande, onde está atualmente o Edifício Caiçara, de Monsenhor Lemercier, falecido no mesmo ano de 1948, de Padre João Mohana, sepultado no túmulo de sua família e muitos outros clérigos e também religiosas, como as Irmãs Dorotéias de Santa Paula Frassinetti e as Irmãs Capuchinhas.

Dentre os intelectuais sepultados no Gavião estão o grande poeta do Guesa Errante, Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, o escritor e fundador da Academia Maranhense Antônio Lobo, o professor e historiador Domingos Vieira Filho, nascido em 1923 e falecido em 1981 e o jazigo de mármore branco com uma bela escultura de um anjo, um pergaminho e uma cruz onde jaz o escritor Aluísio Azevedo.

Não apenas personalidades célebres e importantes dormem o sono eterno no Gavião. Na parte da frente, antes da Capela do Cemitério e nos seus arredores estão os jazigos mais nobres, em sua maioria de mármore branco, granito escuro, ornados com estátuas de anjos, de santos da devoção do defunto ou da família e à medida que se vai adentrando o cemitério aparecem os jazigos simples onde pessoas menos abastadas, pobres, jazem em seus túmulos de alvenaria, caiados de cal branco, encimados com singelas cruzes de ferro ou madeira. Há, ainda, os que jazem enterrados diretamente no chão, às vezes em covas rasas... Como já dissemos, a morte iguala todos, mas o local onde os corpos permanecerão, bem como os materiais e ornamentos de um jazigo revelam muito da condição social do morto e de sua família.

Na Igreja de São Pantaleão, de mármore de Carrara, circundado de folhas de acanto e encimado com as esculturas de um crânio humano, uma ampulheta e um pequeno anjo, tem-se um dos túmulos mais bonitos que encontramos em Igrejas de São Luís. Transcrevo aqui o epitáfio deste túmulo: Aqui jaz Manoel João Corrêa de Souza, natural da Villa de Monção na Província do Minho, em Portugal. Filho legítimo de Izidro Domingues e Izabel Caetana Corrêa de Souza Montenegro. Falleceo nesta Cidade aos 17 de julho de 1937 de idade de 65 annos onde rezidio desde o ano de 1788, e nella exerceu a profissão de comerciante. O crânio simboliza a própria personificação da morte, a ampulheta representa o fim do tempo humano e o recomeço de um novo tempo, a vida eterna e o anjo, o desejo de que a alma do morto vá para o paraíso.

Em várias outras Igrejas há túmulos, jazigos e ossuários, como na Capela do Senhor dos Navegantes, anexa à Igreja de Santo Antônio onde estão sepultados os membros das antigas Irmandades do Senhor do Passos e do Senhor dos Navegantes. Dentre as figuras mais conhecidas está o Barão de Anajatuba, doutor José Maria Barreto, que era médico, militar e político. Também na Sé, na sacristia, jazem muitos clérigos e alguns leigos e no chão diante do retábulo-mor, próximo à Cátedra arquiepiscopal, muitos bispos que governaram a Igreja Católica de São Luís, dormem debaixo de artísticas pedras tumulares com inscrições e elogios fúnebres e brasões eclesiásticos.

Esperamos despertar a atenção, sobretudo neste ano em que se celebram os 400 anos da chegada dos franceses (para muitos, fundação, para outros, invasão), sobre importância histórica e social dos cemitérios, sejam eles a céu aberto, como o velho Gavião, ou dentro dos templos, como é o caso da capela mortuária ao lado da Igreja do Senhor dos Navegantes. Os cemitérios são espaço de pesquisa, fonte de conhecimento e cultura e até lugar de lazer, como, por exemplo, em Paris, no famoso Cemitério de Père- Lachaise e em outras cidades onde há passeios turísticos. Redescubramos a nossa História lá, onde ela parece ter acabado.

Autor: João Dias Rezende Filho é pesquisador, acadêmico de Teologia e bacharel em Direito. Membro da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia (ASBRAP), sediada em São Paulo e do Colégio Brasileiro de Genealogia (CBG), sediado no Rio de Janeiro. É, também, tesoureiro da Associação de Amigos do Arquivo Público do Estado do Maranhão (AAMAPEM).

Referências Bibliográficas: ABBEVILLE, Claude d’. História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1945. ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Tradução de Priscila Viana de Siqueira. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. São Paulo: Edirora Hemus, 1975. BOGÉA, Kátia Santos et alii. Arquitetura e Arte Religiosa no Maranhão. São Luís: 3ª Superintendência Regional/IPHAN, 2008. MARQUES, César Augusto. Dicionário Histórico Geográfico da Província do Maranhão. 3ª edição. São Luís: Edições AML, 2008.

Fonte Primária: Jornal “A Pacotilha” de 16 de fevereiro de 1928. Acervo da Biblioteca Benedito Leite.

http://joaopecegueirodias.blogspot.com.br/2012/03/cemiterio-museu-ceu-aberto.html



Escrito por antonionoberto às 09h43
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Cemitério: Um museu a céu aberto? (I Parte)

Publicado no Suplemento Literário e Cultural Guesa Errante do Jornal Pequeno, sábado, 24 de março de 2012

Por  

A morte iguala a todos, não importando o nível social, econômico, intelectual ou qualquer outro critério que diferencie as pessoas no decorrer de suas vidas. Entretanto, o modo de tratar o morto e de sepultá-lo, bem como onde e como será sua sepultura, trará à tona as diferenças que a indesejada das gentes parecia anular. Em tempos de novas descobertas médicas, de aumento da expectativa de vida, de busca pela juventude através de cosméticos e tratamentos rejuvenescedores abordar o assunto morte é estar na contramão da cultura pós-moderna que se afirma contra a natural finitude humana revelada nas próprias faces vincadas dos que se deixam envelhecer.

Segundo estudos e pesquisas, sobretudo da escola francesa dos Annales, que se debruça sobre a história da mentalidade de cada época, o tratamento dado aos mortos, desde tempos imemoriais, é sinal de crença no transcendente e indica uma religiosidade. Fustel de Coulanges, historiador francês do século XIX, em sua obra “A Cidade Antiga”, delineia a gênese dos sepultamentos, embalsamamentos e cuidados com os mortos que surgem há milhares de anos com os povos chamados indo-europeus e, mais tarde, entre os etruscos, egípcios, romanos e gregos. Este cuidado com os mortos que originou um verdadeiro culto aos antepassados durante a Antiguidade nos legou monumentos perenes como as pirâmides do Egito. O culto aos mortos, com o fim do paganismo e a propagação do cristianismo foi aos poucos desaparecendo para, na Idade Média, dar lugar a certo indiferentismo quanto aos cuidados do sepultamento e ao local da sepultura. Para o historiador francês Philippe Ariès (2003, 73) “Na Idade Média, os mortos eram confiados, ou antes abandonados à Igreja, e pouco importava o lugar exato de sua sepultura que, na maior parte das vezes, não era indicada nem por um monumento nem mesmo por uma simples inscrição” No fim do Medievo, a situação começa a mudar e, já no século XVIII, com as chamadas Luzes, a sociedade dita esclarecida passa a se importar mais com o destino dos corpos de seus mortos. Os sepultamentos, antes realizados nas igrejas e pelas igrejas, o que em latim se dizia ad sanctos et apud ecclesiam, começam a ser feitos nos cemitérios a céu aberto, em geral afastados das cidades, fora de seus muros. A justificativa dos iluministas e médicos sanitaristas para que os enterros não fossem nas igrejas estava no temor de contaminação que os vivos poderiam sofrer pela proximidade, durante os ofícios religiosos e orações, dos gases e emanações pestilentas que se desprendiam dos cadáveres sepultados em grande quantidade no chão dos templos.

Na São Luís de 400 anos atrás, quando aqui aportaram os homens da Corte do rei-menino Luís XIII, já tínhamos, obviamente, pessoas por cá. Eram os indígenas, que tinham sua religião e, certamente, seu modo de compreensão do fenômeno da finitude humana. Não entraremos na questão do sepultamento indígena a qual antropólogos e historiadores do chamado período pré-cabraliano estarão mais afeitos a falar com mais propriedade.

O nosso primeiro sepultamento após o 08 de setembro de 1612, ao menos o conhecido de todos e registrado na história, será o do missionário capuchinho Ambroise d’Amiens, segundo relato de Frei Claude d’Abbeville em sua obra História da Missão Capuchinha no Maranhão. Frei Ambroise, a quem Abbeville chamou de Apóstolo, faleceu em 09 de outubro de 1612, e foi sepultado “em nossa residência [no convento dos Capuchinhos franceses] de São Francisco, junto ao Forte de São Luís, na Ilha Grande do Maranhão”. (ABBEVILLE, 1945, 34).

O primeiro cemitério de São Luís, segundo o Dicionário de César Marques (2008, 331) data do início do século XVIII, onde hoje está a Rua de Nazaré aos fundos da Igreja da Irmandade da Misericórdia, que administrava o referido campo santo. Contudo, é óbvio, houve sepultamentos antes da criação deste primeiro cemitério. Os enterros eram feitos dentro das igrejas, perto dos altares e nas naves principais quando o morto era da nobreza, do clero, sobretudo bispos e membros do alto clero, ou da alta burguesia comercial e do lado de fora das Igrejas, no adro, quando da pequena burguesia comercial e próxima aos seus muros e oitões, quando escravos, ou negros libertos ou pessoas livres, mas pobres ou com poucas posses. Muitos escravos e pobres eram enterrados nas beiras das estradas e caminhos.

Em ofício à Câmara, em 25 de abril de 1788, o Capitão general Fernando Pereira Leite de Foios diz: “como a todos os corpos se dão sepultura no estreito recinto do adro da matriz da mesma capital, sucedendo encontrar-se ao abrir das sepulturas vestígios de não estarem bem consumido os cadáveres, aconselhava ele que, à vista da presente epidemia de bexigas, em que se tem perdido infinitas pessoas, elegessem um sítio e terreno próprio para um cemitério, e cercá-lo de madeira, ficando em estado de se poder benzer e habilitar para sepultura de católicos” (2008, 331). À esta altura, os sepultamentos eram feitos no largo da matriz (Sé) e no antigo cemitério da Irmandade do Senhor dos Passos no fim da Rua Grande, onde é hoje o Estádio Municipal Nhozinho Santos. Um dos motivos para o fechamento do cemitério dos Passos foi a sua localização próxima à nascente da fonte do Apicum, que estaria sendo prejudicada pela contaminação proveniente dos cadáveres sepultados naquele cemitério. Parte dos túmulos e jazigos do Cemitério do Gavião.

Em 1855, o antigo cemitério da Irmandade dos Passos, ao fim da Rua Grande e o chamado cemitério novo da Irmandade da Misericórdia, cujo engenheiro responsável pela planta foi José Joaquim Rodrigues Lopes, futuro Barão de Matoso, e que segundo Jomar Moraes na terceira edição do Dicionário de César Marques, localizava-se onde hoje é o Hospital Socorrão I, entre as ruas do Norte e do Passeio, foram desativados e foi comprado o terreno da antiga Quinta do Gavião, “comprado por 6:400$ réis proveniente da venda de uma casa pertencente a Januário Martins Pereira, que deixou de legado para a Misericórdia e, através de financiamento governamental” (BOGÉA, 2008, 186). A nova necrópole, que por causa da antiga quinta, logo ganhou o apelido de Cemitério do Gavião, começou a funcionar em 06 de setembro de 1855. Quem iniciou a edificação do cemitério do Gavião foi o procurador geral João José Lopes de Sousa, segundo placa no alto do frontão da capela. As outras placas dizem o seguinte: “Instituído em 06 de setembro de 1855 sob a invocação de São José” e “Reedificado pelo mordomo Adriano Duarte Coutinho, nos anos de 1869 a 1873” Por cima da capela, no frontão, há três estátuas de mármore representando as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade, atualmente, todas elas em péssimo estado de conservação.

O cemitério do Gavião é um vasto campo para a investigação e pesquisa constituindo-se em uma fonte multidisciplinar, abrangendo ciências como a História, a Arquitetura, as Artes Plásticas, a Sociologia, a Antropologia Social e muitos outros campos de conhecimento. Em um só jazigo, podemos vislumbrar o estudo da vida do sepultado, as relações sociais dele e de sua família, a arquitetura e as influências artísticas contidas no jazigo dentre outras abordagens possíveis. Já se compararam os cemitérios, muito apropriadamente, a museus a céu aberto. Um túmulo evoca não somente aquele que ali jaz, mas toda a mentalidade a respeito da morte em uma determinada época e lugar. Os símbolos que os ornatos de pedra, mármore, bronze e outros materiais representam são expressões da relação das sociedades com a morte.

No Cemitério mais antigo de São Luís atualmente, o Gavião, as sepulturas nos contam parte da História de nossa urbe. Logo à entrada, duas placas com pitorescas e, para muitos, macabras inscrições, nos recordam a finitude do gênero humano: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos” e “Nós fomos o que tu és e tu serás o que nós somos”, versões de origem portuguesa para o antigo provérbio latino memento moris, lembra-te que morrerás, fazendo eco nas Escrituras judaicas traduzida na Vulgata de Jerônimo como “Memento quia pulvis es et in pulverem reverteris” e que ecoa nas Quartas de cinza após os desregramentos carnavalescos. No alto do portão de entrada eleva-se um crânio com dois fêmures cruzados, símbolo antiquíssimo da morte. Jazigo do Governador Luís Domingues Jazigo de Dr. Antônio Pires Ferreira Leite, filho de Benedito Leite.

Arrolaremos agora, sucintamente, alguns ilustres moradores do velho Gavião e seus jazigos. Dentre os políticos destacamos os jazigos do Governador Luís Antônio Domingues da Silva nascido em Turiaçu, em 11 de junho de 1862 e falecido em São Luís, em 10 de julho de 1922. Imponente sobre seu jazigo, abrigado por um baldaquino de mármore branco encimado por uma cruz, está o busto de bronze de Luís Domingues e logo abaixo as armas do estado esculpidas em mármore. Outro túmulo que se destaca é o do político e também comerciante, Saturnino Belo, conhecido como Satú Belo, que dorme o sono eterno em um grande jazigo de granito escuro encimado por uma escultura de grandes proporções do artista plástico maranhense, natural de Vargem Grande, Flory Gama. Jazigo de Satú Belo.

Governadores sepultados no Gavião, além de Luís Domingues, estão Benedito Pereira Leite, do partido federalista, em um rico jazigo adornado por um grande anjo, vasos funerários de onde saem pequenas tochas, que representam a separação da alma do corpo e tochas invertidas que simbolizam a morte, o desembargador Manoel Lopes da Cunha que não concluiu o mandato passando ao seu vice, Alexandre Colares Moreira Júnior que assumiu o governo de 1902 a 1906 e também jaz no Gavião, Pedro Neiva de Santana, o jornalista e político João Pires Ferreira, o J. Pires, que foi deputado estadual constituinte em 1947 e na qualidade de presidente da Assembleia assumiu interinamente o governo, dentre outros. Infelizmente, a despeito da posição que estes homens ocuparam e de como atuaram na História de nossa Cidade e nosso Estado, suas sepulturas, em sua maioria, estão em estado de abandono, o que não é surpresa, pois, em comentário ao Dicionário de César Marques, Antônio Lopes ao se referir ao velho cemitério dos Passos diz: Nada mais resta deste cemitério. No correr dos tempos os túmulos, muitos de pedra de cantaria ou mármore trabalhado a primor, foram violados, para a retirada de pedras, cruzes e ornatos. Custa a crer que uma cidade desprezasse a tal ponto um campo santo, onde havia em inscrições lapidares mais de um século de história do Maranhão e foram sepultados os restos mortais de ilustres maranhenses. Vê-se que o descaso com esses monumentos fúnebres não é de hoje. Ao fundo do mausoléu de Benedito Leite, encontra-se o de seu filho, Dr. Antônio Pires Ferreira Leite, que era médico recém-formado, falecido precocemente, em 26 de março de 1918, aos 28 anos. No seu túmulo ergue-se uma coluna quebrada ou partida, símbolo antigo que representa a morte durante a juventude ou até os 30 anos. É também um símbolo associado à maçonaria.

http://joaopecegueirodias.blogspot.com.br/2012/03/cemiterio-um-museu-ceu-aberto-i-parte.html



Escrito por antonionoberto às 09h14
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IHGM

Discurso de Antonio Noberto em recepção a Clores Holanda

 

São Luís, 22 de março de 2012.

 

Excelentíssima Senhora Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão,

Exmº Sr Antonio Oliveira, vice-reitor da Universidade Federal do Maranhão

Exmª Sra Clores Holanda, historiadora e empossanda

Demais autoridades,

Caros confrades, caras confreiras; familiares, amigos e colegas de trabalho de Clores Holanda; amigos da imprensa, fotógrafos, funcionários da casa, amigos (as) Oswaldo Luiz Gomes, Raymond e Almerinda Ricard, Imair Pedrosa e Marilene Sabino.

Demais presentes, boa noite!

Primeiramente destacamos que o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, instituição fundada em 1925, é uma entidade formada por homens e mulheres de reconhecido saber e valor literário. Pessoas experimentadas que prestaram e prestam relevante contribuição ao Maranhão, ao Brasil e ao Mundo. As últimas administrações desta casa entraram em processo de renovação do seu quadro de sócios efetivos. A atual diretoria, capitaneada com competência pela presidente Telma Bonifácio dos Santos Reinaldo – que comigo indicou Clores Holanda para esta vaga – e ancorada pelo incansável vice-presidente Leopoldo Gil Dulcio Vaz, vem imprimindo novo ritmo às ações do Instituto, conhecido como casa de Antonio Lopes. A sócia efetiva e então presidente desta entidade, professora Eneida Canedo, no ano de 2009, sintetizou a missão precípua do IHGM, que é “desenvolver o conhecimento científico, especialmente nos campos da história e da geografia do Maranhão”.

 Todos os ocupantes das cadeiras do IHGM tem plenas condições de ocupar esta tribuna e fazer com competência a apresentação de novos (as) sócios (as). Porém, nesta noite coube a mim, um dos pequenos nesta seara de imortais, servir de moldura a este belo quadro chamado Clores Holanda. E o faço alegremente em nome de todos os meus pares, presentes e ausentes.

A deusa das flores

A sociedade contemporânea tem características consideradas bastante exóticas se comparada às demais. A partir do período Industrial (1750 – 1950 – arredondando as datas) passou a existir, por exemplo, a figura do desempregado. Antes, nos ofícios, na sociedade agrária, trabalhava-se no próprio espaço onde se habitava. O deslocamento diário para a jornada de trabalho, a ida e a volta, que atualmente não raro culmina em grandes engarrafamentos de veículos nas vias urbanas, àquela época, na Sociedade Industrial, ao final da jornada, os trabalhadores voltavam para casa, mas a empresas continuavam com todo o seu patrimônio retido no prédio da fábrica. O valor da empresa estava nos insumos, especialmente, no maquinário e na matéria-prima, e naquilo que foi produzido. Nestes tempos digitais, do computador e do homo conectus, em que os valores e demandas da sociedade migraram, as empresas de tecnologia não mais retêm seu patrimônio ao fim da jornada, pois o mesmo vai embora diariamente quando os colaboradores deixam o serviço, e retornam no dia seguinte. O valor da empresa, portanto, passou a ser medido pelo grau de tecnologia e, principalmente, pela competência e pelo nível de conhecimento do seu staff.

Todo este exórdio, confreiras e confrades, senhoras e senhores, tem a finalidade de abrirmos a cortina para acessarmos uma história bonita, singular, quase uma odisséia, repleta de detalhes emocionantes que, tenho certeza, tem um pedacinho de cada um dos presentes. A trajetória de Clores Holanda é marcada pelo amor, carinho, sucesso e pela competência, porém, de uma luta constante, onde o líquido e certo nem sempre era tão líquido e tão certo, visto que ela viveu a aridez da dureza da vida. Clores viu e sentiu na pele – no dizer do meu patrono Augusto Tasso Fragoso – “os travos da injustiça humana”. Mas, repetindo o imperador Júlio Cesar, hoje ela pode dizer: “Vim, vi e venci”.

Clóris é, segundo a mitologia grega, a ninfa dos campos, a deusa das flores e da primavera. Em Roma era chamada de Flora, possuindo o mesmo significado.

Nosso discurso, como visto, é muito atrativo, colorido, perfumado, gostoso de discorrer, mas sabemos que nem tudo são flores, até porque a primavera não dura o ano inteiro. Além de não ser um mar de rosas a vida é um intenso combate, renhido às vezes, que nossa historiadora e empossanda soube com maestria levar a bom termo.

O grande maranhense Humberto de Campos, nascido em Miritiba, lugar que hoje recebe o seu nome, em sua obra Destinos (OPUS EDITORA LTDA. 1983), certa vez nos contou a história de um gênio que, passando pela terra encontrou dois beduínos no deserto da Arábia, quando lhes deu, além de alguns palmos de terra em um oásis, a um, um saco de ouro, ao outro um saco de estrume. Ao voltar no ano seguinte, o gênio observou que o homem que recebeu o saco de ouro continuava com seu ouro. O que recebeu o saco de estrume possuía um jardim, todo coberto de flores. Humberto de Campos finaliza dizendo que “A sabedoria humana..., consiste não na conservação das coisas boas que recebemos, mas em transformar em coisas boas as más coisas que o céu nos dá”.

Esta estória, você perceberá, não é, nada mais, nada menos que o resumo da vida da nossa homenageada. Que não encontrou um mundo pronto, cercadinho, bonitinho, mas, impulsionada pela inquietação – comum aos vencedores, aos espíritos evoluídos e bons pesquisadores – e pelas palavras do apóstolo Paulo de Tarso, que, escrevendo aos romanos os admoestava: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). Todo este nhenhenhém você verá ao final, que muito diz respeito a Clores Holanda Silva.

Comecemos, então... 

 



Escrito por antonionoberto às 22h46
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Inesquecível aquele 30 de novembro de 1979. Aos 19 anos, saindo da adolescência, portanto, muito insegura e com as pernas trêmulas, Clores deixou a residência na Rua de Santaninha e pegou o coletivo na Praça Deodoro. Seu destino era a sala do reitor da UFMA, professor José Maria Cabral Marques, para uma entrevista de primeiro emprego. Aquele tormento infernal, um estado de nervos que parecia lhe dizer que aquele recinto era certamente uma câmara de gás de um campo de concentração, só terminou quando ela adentrou ao local e o reitor, com toda a simpatia do mundo, chamou-a de criança. Ela respirou fundo, descontraiu, o chão retornou e tudo acabou dando certo.

O primeiro labor foi como arquivista no prédio que conhecemos como CEB Velho. Deu nova cara aos amontoados de pilhas de papéis. Racionalizou o lugar. E como nem tudo está tão bom que não possa melhorar (tenho certeza que todos aqui já ouviram o contrário desta frase, mas lembrem que estamos falando de Clores Holanda, que é extremamente positiva, pensa positivo e as coisas sempre dão certo), ela fez um curso de Documentação e Arquivo, um perfeito divisor de águas, que lhe deu um upgrade na carreira (permita-me o estrangeirismo). Imagine só, uma pessoa alegre e feliz, autodidata, criativa, apaixonada pelo que faz, que ainda por cima recebe um curso que tem tudo a ver com a sua personalidade e pretensão.... O que isto poderia resultar? Em trabalho bem feito, é claro! E trabalho bem feito, é sabido, sempre atrai a atenção das outras pessoas – para o bem e para o mal. Uma de suas características é nunca esperar cobrança do gestor, sempre se antecipando aos fatos. Observada por todos, não demorou muito para ser “confiscada” por outro setor mais destacado.

Tentou algumas vezes o vestibular para o curso de Medicina, e nada! Em um deles faltou só um pontinho. E depois, influenciada pelo irmão historiador Nacor Holanda Silva, investiu em Licenciatura em História e obteve, enfim, em 1985, a glória da aprovação. Hoje, Clores é graduada e pós-graduada em História pela Universidade Federal do Maranhão, além de ter iniciado mestrado em Franca-SP, mas o infortúnio da perda de um dos irmãos, trouxe-a de volta ainda nos primeiros meses do curso. Em 2005 concluiu especialização em Gestão de Arquivos, também pela UFMA. Publicou diversos artigos e livretos, geralmente ligados à administração da UFMA e ao Palácio Cristo Rei. Entre eles: Histórico do Palácio Cristo Rei (2005); Os significados e usos das vestes talares na Universidade Federal do Maranhão (2011); A bandeira da Universidade Federal do Maranhão (2011); Os reitores da Universidade Federal do Maranhão – Gestão Pedro Neiva de Santana – 1967-1968 (2011), dentre outros.

Nossa confreira – já posso chamá-la assim – é esta pessoa competente, de valor, que conhecemos. É totalmente dedicada e devotada ao trabalho, como é sabido pela maioria dos presentes. É romântica, agregadora e de incontáveis virtudes. Sempre solicitada, vez que tudo faz com singular amor e competência.

Senhoras e senhores, quem quiser saber mais sobre a vida profissional da nossa empossanda está convidado (a) a tomar um cafezinho com ela. Você vai ter muito a ouvir, a ficha é extensa. Ou poderá dar uma espiadinha no curriculum dela, que ficará à disposição no IHGM, pois agora vamos nos ater ao momento que moldou a personalidade gostosa, alegre, jovial, descontraída e vitoriosa da nossa estimada noviça confreira.

Meus avôs diziam que nunca se deve perguntar ou falar a idade de uma dama, por isso, digo que Clores tem um pouco mais de primaveras que este que vos fala e bem menos que nossos confrades Vavá Melo e Aimoré Alvim. Ela nasceu em Presidente Dutra – MA, “quando o sino batia as 18h30”, no dizer da sua adorável mãe. É a antepenúltima de uma família de dez irmãos. Usou azul e branco até aos sete anos, quando também cortou o cabelo – foi promessa materna! Boas lembranças são as roupas rodadas, o branco, o azul, a escola e os colegas, a fartura na mesa, o aconchego da mãe e dos irmãos. Seus pais Geraldo Holanda Cavalcante e Maria Nazaré Gomes Holanda Cavalcante, conhecida por Zazá Holanda, ambos falecidos, foram seus balizadores. Na verdade os pais de Clores foram obrigados a casar porque, em um baile, ele deu um beijo na boca da mãe dela. Isto passado apenas três dias daquela “imoralidade”. Beijar na boca já foi coisa muito grave. Se ainda hoje cada beijo resultasse em um casamento tenho um parente que, de cada balada, voltaria com umas dez sogras.

Dona Zazá amava Clores a mais da conta, tanto amor materno transpôs décadas e chegou aos nossos dias na forma de um olhar sereno e um sorriso alegre, que fala muito daquela infância bem vivida. Seu maior sonho era usar roupa encarnada. Desejo inesquecível. Na cidade natal estudou no Convento, que era uma escola de freiras, a melhor da cidade. Era muito sapeca. Brigava com a irmã, pois tinha ciúmes dela. A luz apagava as dez da noite, ocasião em que aproveitava para brincar de roda à luz da lua com seus belos cabelos cacheados.

O pai dava uma vida confortável aos filhos e a toda a família, viviam tranqüilos naqueles anos sessenta. A fartura era tanta que, para agradar a todos os filhos, cada um ganhava uma melancia. Mas, como falamos acima, a primavera não dura o ano inteiro. E o certo e líquido, foi deixando de ser tão certo e tão líquido, quando a política, felicidade de uns e tristeza de outros, mostraria sua face perversa àquele clã alegre e feliz. Seu pai, por esses revezes da vida, perdeu o tabelionato, e ficou abalado emocionalmente. O apoio outrora constante de amigos e parentes se tornou escasso. A família migrou para Santa Inês. Nada melhorou. No ano seguinte retornaram a Presidente Dutra sem o triunfo pretendido. A mãe colocou comércio. Aos doze anos Clores foi estudar em Aracaju, capital de Sergipe. O pai faleceu no ano de 1975. Nesse período os irmãos mais velhos já ajudavam no sustento da família. Entre eles destacou-se Pergentino, que se tornou jornalista e foi o pai de todos. Naquele mesmo ano do passamento do pai, trouxe a família para São Luís. Clores se tornou bolsista no colégio Santa Tereza. Depois estudou no colégio MENG.

Clores rima com UFMA, vez que praticamente toda sua vida profissional e acadêmica foi nesta instituição de ensino superior. Sempre teve medo de alma, mas adora cemitério, “lugar de paz”, diz com certa empolgação no rosto. Qualquer semelhança comigo não é mera coincidência. A diferença é que não tenho medo de alma. A missão dela é cuidar da irmã e da família. Considera o horário do almoço uma hora sagrada. Foi feliz duas vezes. Teve dois amores. Sua frustração é não dirigir, tem um carro que fica parado na garagem, mas prefere andar de ônibus.

É mãe e cúmplice da jovem e bonita Marcella Holanda Mendes, formada em Design de interiores e graduanda em Administração no UNICEUMA. Ela diz com olhar de mãe coruja – “Marcella é a razão da minha vida!”.

Vou ficando por aqui, até porque o patrono de Clores é um vulto gigante, que demanda muito tempo para apresentá-lo. Mas não poderia deixar de dizer que se a vida dela teve grandes percalços ou não foi um “perfeito mar de rosas”, ao menos agora ela pode cantar como Edith Piaf: Non, rien de rien, non, je ne regrette rien. Ni le bien qu’on m’a fait. Ni Le mal. Tout ça m’est bien égal – “Não, nada de nada! Eu não lamento nada. Nem o bem que me fizeram. Nem o mal. Tudo isso tanto faz!”. Portanto, minha amiga e confreira, pela competência, simplicidade, amor, serenidade, ternura, devoção, alegria e vitória é que o teu jardim está tão florido. Por tudo isto, pelo majestoso amor ensinado por Dona Zazá, a boa criação, providência e carinho dos irmãos, é que você exala o bom perfume. Puseram-te o nome Clores profetizando, quem sabe, que um dia você seria A deusa das flores. Por isso, em nome de todos os confrades e confreiras desta casa de Antonio Lopes, convido-te a entrar neste Instituto. Embeleze-o e perfume-o ainda mais.

Muito obrigado!

 

Antonio Noberto, Cadeira 43 – Augusto Tasso Fragoso.

 



Escrito por antonionoberto às 22h45
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Língua portuguesa?

*Antonio Noberto

Um amigo europeu que sempre passa férias no Brasil, não faz muitos meses, trouxe-nos uma questão que não é nova. Queria saber o porquê do nosso idioma ainda se chamar português. Ele resumiu que, para os europeus mais inteirados da cultura brasileira, em razão da maiúscula participação de termos indígenas, africanos e estrangeiros na língua brasileira, é incompreensível o país ainda manter algo que não interessa à cultura, a política e, muito menos, à economia nacional. Finalizou dizendo que nossa língua é O BRASILEIRO, e não o português. “É uma questão de justiça e independência”, arrematou.

As palavras do nosso amigo, entre outras coisas, nos fizeram refletir também sobre a recente adequação ou revisão ortográfica da língua portuguesa. Em Portugal a resistência à alteração na gramática é assaz acentuada. Tem gente chiando barbaridade, como uma portuguesa que, em um site, sobre a reforma, postou o seguinte: “Mais uma vez Portugal rebaixa-se, porque razão é que temos que ser nós a mudar e não os brasileiros, eles é que não tiveram inteligência suficiente para aprender a língua correctamente, e agora por causa disso somos nós que temos que aprender nossa língua novamente? Como é que vamos pôr nas cabecinhas das nossas crianças que a maneira como aprenderam a escrever agora já não é a correcta. Quanto a mim vou continuar a escrever como sempre escrevi, sou portuguesa não sou brasileira”. Ela chega a nos chamar de “burros brasileiros”. Mas, como toda moeda tem dois lados, perguntamos: será que ela não tem lá suas razões? O seu sagrado direito de, no mínimo, espernear? Portugal errou quando fez sua primeira grande reforma a um século e – como era de se esperar – não consultou o Brasil, aumentando, com isto, a distância lingüística entre o dois países. O certo é que o Brasil tem quase duzentos milhões de habitantes e Portugal apenas dez. Ou este se adéqua a mudança ou “não sabemos” o que lhe poderá acontecer. A adequação é questão de sobrevivência para o país do Velho Mundo, que, mesmo com a irrelevante e frágil economia, nunca perdeu o hábito de querer ser colonizador.

Mas não percamos o foco... Até meados do século XVIII vigorava no Brasil o escambo, vez que, pela escassez de cédulas e de moedas de metal, a moeda corrente era o pano ou rolo de algodão. O famoso escritor Laurentino Gomes, repetindo as palavras de um viajante francês, disse: “Antes da chegada da Corte ao Rio de Janeiro, o Brasil era um amontoado de regiões com pouco contato, isoladas umas das outras, sem comércio ou qualquer outra forma de relacionamento”. E a língua mais falada até aquela época era o tupi-guarani. Isso mesmo, a língua indígena foi a língua mais falada no Brasil até a metade daquele século. Nessa época a população branca era consideravelmente pequena. Em 1600, por exemplo, era de apenas 30.000 e em 1766 a população livre girava em torno de 800.000 (Cronologia de história do Brasil Colonial – 1500 – 1831 / Andrea Slemian... et al. São Paulo; FFLCH-USP. 1994). Em 1756 o Marquês de Pombal proibiu a utilização de qualquer outra língua, inclusive a língua geral, de base tupi.

Os africanos foram escravizados e os indígenas dizimados, o mesmo, felizmente, não conseguiram fazer totalmente com a língua destes povos que, incorporada ao idioma oficial do país, atravessou séculos e permanece viva através dos milhares de termos que usamos no dia a dia.

O legado da cultura negra é bastante presente no Brasil, percebemos isto na religião, na comida, música, no modo de ver a vida, nos mitos e lendas, e também na própria língua. Para cá vieram negros de quase toda a África, sendo o destaque por conta de dois grandes grupos: o guineano-sudanês e o banto – que habitava o litoral africano. Provenientes em sua maioria do Benin, Angola, Nigéria e Congo, falavam diversas línguas e dialetos como o quimbundo, quicongo e o umbundo, dos quais herdamos inúmeros termos, sendo: vatapá, quitute, farofa, acarajé, canjica, mandinga, oxalá, iemanjá, ogum, senzala, Bangu, quilombo, miçanga, tanga, samba, berimbau, maxixe, maribondo, camundongo, mangangá, mutamba, dendê, quiabo, moleque, bagunça, cachimbo, coringa, dengo, quitanda, fubá, bunda, calombo, banguela, e incontáveis outros. Algumas se misturaram com o português: pé-de-moleque, angu-de-caroço, mini-tanga, molecagem, etc. Um maiúsculo legado para nossa língua que não cabe em um simples texto, mas em um volumoso dicionário.

Do tupi-guarani são milhares as palavras herdadas dos primeiros habitantes do Brasil. “Do Oiapoque ao Chuí!” a língua inicial tira de letra. São nomes de lugares – a maioria dos nomes dos estados brasileiros são de origem indígena –, acidentes geográficos, nomes de pessoas, etc. A culinária brasileira típica é profundamente indígena. Mas a gente pode começar por uma palavra que pipocou na rede mundial, ao menos aos usuários do Facebook: cutucar – tocar alguém com algo em forma de ponta. Não menos lembradas: cuia, embiocar, espocar, canoa, igapó, abacaxi, capenga, aipim, jacá, araçá, Aracaju, taquara, beiju, bocó, boitatá, buriti, bruaca, iara, Ipanema, Itaipava, Itamaracá, Itapemirim, tororó, jiqui, jirimum, jururu, piracema, pirão, pitada, pixaim, Piauí, Ceará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Pará, Goiás, Acre, perereca, peteca, pipoca, pindorama, mandioca, maniçoba, maruim, mingau, mirim, moqueca, mussum, mutirão, mutuca, paçoca, socar, pamonha... E tantas e tantas outras.

Os termos indígenas e africanos não raro sofreram um doloroso processo de depreciação, como parte de uma política de dominação do vencedor luso. Vemos isto, por exemplo, em mulher (cunhã), menino (curumim), interiorano (caipira), garoto (guri), morada (tapera), piolho / sovina (muquirana), vadia (piranha), pobre (pindaíba), bruxaria / ritual (pajelança), lerdo / tonto (pamonha), pereba, etc.

A influência estrangeira na nossa língua e cultura também é muito presente. Temos então, a título de exemplo. Do francês: abajur, ateliê, baguete, baton, bege, bistrô, bijuteria, boate, carrossel, capô, cassetete, etc. Catalã: beldade, baixela, capacete, convite, disfarçar, esmalte, faixa, nau, moscatel, etc. Do inglês: bife, blecaute, blefe, club, coquetel, craque, dólar, drinque, futebol, gol, etc., quase todos os termos utilizados na informática. E tantas outras participações alógenas.

A mudança da nomenclatura da língua – de português para O BRASILEIRO – será um enorme ganho, principalmente através da atividade turística, uma ótima oportunidade de divulgação da cultura nacional genuína, uma forma de emergir a cultura local gerando riquezas e empregos aos nacionais, pois o estrangeiro ainda tem muita curiosidade com relação à cultura brasileira. Outro ganho imensurável é que as incursões governamentais que tentam diminuir a desigualdade entre ricos e pobres ganhariam reforço, vez que o resgate de tão valoroso legado afro-indígena traria para a pauta as duas culturas secularmente marginalizadas pelo privilégio branco.

Para um país que vem galgando enormes passos e vencendo degraus na economia é importante atentar também ao campo cultural sob pena deste não acompanhar a contento o avanço do nosso mercado e não fincarmos marcos mais profundos, quando todos sabem que o poder não prescinde de uma forte produção cultural (existe exemplo mais flagrante do que a produção Hollyhoodiana?). Os galhos do poder constituído são uma tentação, é verdade, mas não devemos ter receio das idéias alternativas, pois, neste caso, a justa adoção dO BRASILEIRO, ainda que não nos leve ao Jardim do Éden, aumentará a estima dos brasileiros e poderá ser um vetor a mais na atração de fluxos estrangeiros a este paraíso para conhecerem esta terra ainda tida por muitos como sem males. Sonho do imaginário estrangeiro que perdura, sem, no entanto, ser devidamente explorado através da nossa atividade turística.

Viva o idioma BRASILEIRO!

*Turismólogo, escritor e Sócio-efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão



Escrito por antonionoberto às 21h12
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Rifoles

Um elo com o exterior

*Antonio Noberto

De férias no Rio Grande do Norte, na região metropolitana de Natal, acompanhado da esposa e da filha de um aninho e nove meses, visitei novamente alguns pontos turísticos tradicionais do lugar: o maior cajueiro do mundo, as piscinas de Búzios, Jenipabu, o Forte dos Reis Magos, o cemitério do Alecrim e, desta vez, a Base Naval da Marinha Brasileira. No citado Forte ouvi atento as explicações de um dos guias. O rapaz, com muita informação na ponta da língua, brincava e divertia os visitantes promovendo uma oportuna viagem no tempo. Algumas palavras, no entanto, destoaram do clima plural e xenófilo proposto pela atividade turística. O jovem maximizou as glórias do colonizador luso e, pelo menos em parte, desmereceu a presença estrangeira no Brasil colonial. Disse que os holandeses invadiram a cidade em 1633 e trouxeram apenas destruição. Na verdade, não é só ele quem difunde a idéia, o próprio local incentiva a atitude. Ver-se nas paredes da Fortaleza um verdadeiro louvor ao colonizador ibérico, sem nada mostrar de virtuoso dos estrangeiros. Um pecado secular que, ingenuamente, ainda se sustenta em nosso país. Saindo da bela Fortaleza seguimos em direção ao Rifoles, lugar onde foi construído a Base Naval a partir de 1941. Por gostar das crônicas e textos recheados de história do magnífico Luís da Câmara Cascudo, que tanto cantou e decantou o Rifoles, quis saber o que havia restado daquele importante lugar, marco inicial da história potiguar, ponto de partida para o Maranhão. Os moradores dos arredores da Base Naval sequer conheciam o topônimo Rifoles. Sinal que os textos do sábio guru rio-grandense ainda são desconhecidos pelas novas gerações, bem como a obra do também escritor Tarcísio Medeiros. As palavras de xenofobia do jovem guia e a resposta negativa dos moradores do entorno do Rifoles, me deixou triste e preocupado. Triste, por perceber que os guardiões do Rifoles – potiguares e a Marinha – ainda não levaram adiante o legado inicial de 1941, quando o empreendimento à margem direita do Rio Potengi recebeu o nome de “Base Naval do Rifoles”. Não existe sequer uma plaquinha que faça referência a isto. Preocupado, por observar, quando estamos às portas de mega-eventos internacionais como Olimpíadas e Copa do Mundo, vivendo na era dos serviços, do conhecimento, das tecnologias, do lazer e do entretenimento, que ainda sustentamos jargões coloniais na época usados única e exclusivamente a serviço do colonizador luso em detrimento dos interesses brasileiros.

O Rifoles (ou Refoles) é o lugar, na margem direita do Potengi, próximo à foz, onde o famoso capitão francês Jacques Riffault ancorava suas naus, uma delas, conhecida como “nau do Rifoles”. Nele, franceses e potiguaras negociavam e viviam em perfeita harmonia. Deste porto Riffault, em 1597, saiu com uma esquadra em direção à Paraíba. O objetivo era tomar o Forte do Cabedelo (atual Fortaleza de Santa Catarina. Marco do início da BR 230), então edificado de pau-a-pique. O insucesso da investida fez com que a coroa espanhola reagisse e expulsasse os franceses do Rio Grande e construísse o Forte dos Santos Reis (dos Reis Magos), a poucos quilômetros dali. E logo em seguida uma povoação, núcleo inicial da cidade do Natal, muito próxima ao Rifoles. Foi também do Rifoles, em 1594, que o capitão partiu para o Maranhão, lá deixando seu imediato Charles des Vaux com cerca de trezentos franceses, e este, por volta de 1608, foi a França e se aliou ao fidalgo Daniel de La Touche de La Ravardière, que convenceu o Rei Henrique IV de Navarra a criar uma colônia francesa no Maranhão, com sede em Upaon-Açu (Ilha Grande), atual São Luís.

Colonizar utilizando-se de produção cultural não é invenção norte-americana. Desde os tempos mais remotos a cultura é usada para catequizar e subjugar. No Brasil não foi diferente. As estratégias portuguesas incluíam uma produção cultural religiosa (em muitas das principais batalhas lusas sempre “acontecia” um milagre em favor dos portugueses – principalmente contra protestantes) que legitimava qualquer procedimento; e uma difusão massiva contra os estrangeiros, chamando-os de maus, hereges, invasores, contrabandistas (ato impossível nos tempos iniciais do Brasil, pois não existia fisco e, portanto, não podia haver contrabando), etc. O que impressiona é que, nos dias atuais, apesar da velocidade da informação e da internet, ainda persista muitas inverdades e sentimentos impingidos contra os estrangeiros. A estratégia era usada para mantê-los longe das riquezas do país (principalmente o ouro das Minas) e hoje, infelizmente, a cultura secular de marginalizá-los, contribui para o baixo desempenho do PIB turismo no Brasil (menos de 3%). Recebemos menos de sete milhões de visitas internacionais anualmente. Número inferior a de alguns pequenos países caribenhos.

Foram os estrangeiros que ajudaram o Brasil a crescer e se tornar esta grande potência econômica, sejam eles espanhóis, franceses, portugueses, ingleses, holandeses, italianos, alemães, americanos, suíços, poloneses, japoneses, sírio-libaneses, latino-americanos, dentre muitos outros. A observação mais importante é que faz apenas um século que o país deslanchou para esse cenário de prosperidade, um verdadeiro milagre frente ao atraso colonial sustentado no medo do colonizador em educar os nacionais mantendo-os avessos ao visitante. Um exemplo da grande contribuição estrangeira ao Brasil foram os holandeses, comandados pelo Conde Maurício de Nassau, que além das construções físicas e liberdade de culto, mapeou e documentou o país. As obras de Franz Post e Gaspar Barleus são até hoje maiúsculas referências a pesquisadores e estudantes. Mas eles ainda são mostrados nos bancos escolares como invasores e perversos.

O momento atual demanda-nos maior desprendimento, de se abstermos de reproduzir a xenofobia do passado, então utilizada como estratégia de dominação, sairmos da defensiva e descobrirmos o mundo interativo, integrado. É assim que assumiremos verdadeiro papel de potencial mundial.

Natal é um lugar pioneiro. Um marco do Nordeste Brasileiro e atual referência em turismo natural. O Estado mostra a cada dia que possui um povo acolhedor e inteligente, um empresariado visionário, de sucesso, que descobriu o grande valor da atividade turística e nela continua investindo. E também não olvidará que o turismo histórico-cultural tem maior poder agregador, com mais solidez, é menos suscetível à degradação e à sazonalidade, além de atrair um turista de qualidade. O Refoles é um dos lugares históricos de grande importância da capital potiguar que espera por uma atitude de resgate. Foi no passado um pólo difusor regional e o único elo com a Europa. Resgatá-lo poderá ser outra forma de expressar que aceitamos o estrangeiro, somos multifários e não temos medo do novo. Até porque, com o turismo, a história se inverte, o visitante é quem traz e deixa riquezas e empregos.

Dia 8 de setembro de 2012 São Luís comemorará seu quadricentenário de fundação pelos franceses e muitos ludovicenses sabem que o Rifoles é o ponto inicial de união Maranhão – Rio Grande do Norte.

*Pesquisador, consultor em turismo e membro do Conselho diretor da Aliança Francesa de São Luís

antonionoberto@hotmail.com 



Escrito por antonionoberto às 20h23
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A grilagem e produção de arroz no Maranhão

 

Adalberto Franklin*

 

Final da década de 1960. O Maranhão tornara-se o segundo maior produtor de arroz do país, graças às safras recordes de Imperatriz e das regiões do Mearim e Pindaré. Arroz cultivado no velho sistema sertanejo do “toco” e da queimada, por dezenas de milhares de famílias nordestinas que se estabeleceram no Maranhão, fugitivas das inclementes secas da primeira metade do século XX.

O sudoeste maranhense era o paraíso dos migrantes. Além de incontáveis rios perenes, como em todo o Estado, havia um vastíssimo território de terras devolutas. Aí, em menos de dez anos, se estabeleceram mais de trinta mil agricultores nordestinos, exímios plantadores de arroz, feijão, milho e mandioca.

Em 1969, a produção de arroz na região teria superado a barreira de um milhão de sacas. Chegara-se ao final da década com mais de duas dezenas de usinas de beneficiamento de arroz no município.

A predominância da cultura do arroz na economia de Imperatriz se deu até os primeiros anos da década de 70, quando as grandes fazendas de gado foram tomando o espaço das roças, muitas vezes através do esbulho possessório e do poder da grilagem, ou mesmo da pistolagem. Centenas de famílias que há mais de uma década ocupavam áreas devolutas se viam, de repente, obrigadas a abandonar suas posses sob a coação de um documento forjado ou do cano de uma arma. Era o poder da grilagem, no caso imperatrizense, ativa por mais de duas décadas, contribuindo com a gradativa redução da área destinada à agricultura, que cedia espaço ao gado, forçando o despovoamento do campo e o inchaço das áreas suburbanas da cidade.

A fragilidade dos posseiros se dava, principalmente, porque a quase totalidade dos que imigraram para o sudoeste maranhense era formada por camponeses analfabetos ou por pessoas de pouca instrução, sem noção legal de posse ou propriedade; para quem a terra devoluta, sem produção e sem reclamante, era território de quem nele se atrevesse a derrubar, queimar, plantar e colher; que tivesse disposição e coragem para a lida da roça. Documentação de terra não era objeto de sua preocupação.

Essa mentalidade típica do sertanejo nordestino, porém, entrou em choque com outras culturas que se cruzaram nos territórios do Bico do Papagaio, na região do Tocantins e do Pindaré, onde surgiu cruel e violentamente a figura do grileiro, com documentos forjados em conluio com cartorários, políticos e autoridades, expropriando-os de suas posses.

A mesma situação vinha se verificando na região maranhense do Pindaré, contígua ao território de Imperatriz, onde surgiram violentos conflitos no processo de resistência dos lavradores que, a partir da década de 1950, ocuparam aquelas matas com grandes plantações de arroz, abrindo novas fronteiras produtivas e formando povoações, o que deu origem à criação do município de Santa Luzia.

O desmantelamento desse ciclo produtivo foi, principalmente, resultante do embate e da concepção de propriedade da terra, em que o pequeno agricultor tinha larga desvantagem. Para este, a terra em si mesmo não era vista como mercadoria, mas como meio de produção de sua sobrevivência, raciocínio que o levava a um sistema de cultivo em áreas abertas, sem cercas ou demarcações, a “terra liberta”, variando sua extensão de acordo com a necessidade, ano a ano, conforme sua capacidade de cultivá-la. Nesse universo cultural não se enquadra a titulação.

No início deste ano, tive acesso a um registro do modus operandi da grilagem na área conhecida como “Estrada do Arroz”, município de Imperatriz, formada por mais de uma dezena de povoados então maiores produtores de arroz na região. O texto, datado de 14 de setembro de 1975, é da Irmã Gertrudes, uma missionária católica que na primeira metade dos anos 70 dava assistência às famílias daquelas comunidades.

 

Nova e triste notícia do Pequizeiro. Os homens de Raimundo Fogoió queimaram as terras perto do povoado, atingindo também algumas casas. [...]
Três famílias, não aguentando a pressão e sabendo inútil o seu esforço em procurar seus direitos, resolveram vender por Cr$ 2.000,00 suas terras, suas casas e seus ricos quintais e foram morar em Imperatriz.
Os outros estão sem saber o que fazer, pois sentem que estão ficando sem forças, sem coragem de lutar. Sabem que o mais forte e o que tem mais dinheiro é quem vai vencer.”

 

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*Adalberto Franklin é jornalista e historiador. Autor de “Breve história de Imperatriz”, “Apontamentos e fontes para a história econômica de Imperatriz”, dentre outros.

 



Escrito por antonionoberto às 23h18
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E porque é carnaval….

Por: Chico Viana (médico e vereador de São Luís)

E porque é tempo de folia, um pouco de irreverência e de estórias de uma época em que o carnaval era carnaval mesmo, uma festa do povo, para o povo e com o povo. Democracia, era aquilo.

Não havia desfile organizado, alas, baterias, samba-enredo, nada destes badulaques que transformaram o carnaval em um espetáculo, onde o que menos se vê é alegria e disposição para se divertir numa boa.

Para começar, os senhores já viram carnaval sem músicas de carnaval? Lembro-me da primeira marcha que iniciou meus carnavais, ‘Sassaricando’, que eu cantei horrores ainda em plena infância e que até a decretação da morte das músicas carnavalescas animava qualquer salão quando a coisa esfriava. E ainda hoje eu estou sem saber o que é sassaricar, ou saçaricar, e muito menos sassarico. Recorro ao Houaiss, com as suas 3.000 páginas, 228 mil verbetes, 380 definições e ‘fiat lux’: sassaricar é dançar, ou andar sacudindo o corpo; rebolar(-se), saracotear(-se) folgar, brincar; enfim, um verbo intransitivo por mais transigente que fôssemos a seus acordes. Muito apropriadamente, ele registra que sassarico é a pessoa com quem se sassarica, e, mesmo sem saber, sassariquei estes anos todos, e continuo sassaricando aqui e ali, é o hábito.

Banda de carnaval que não o tocasse ‘Jardineira’ nunca mais voltaria ao palco daquele clube e, provavelmente, de nenhum outro. E olha que Orlando Silva gravou esta música do Benedito Lacerda em 1939, e todo ano espancava o cansaço no fim dos bailes, e para colocar todo mundo louco, só ‘Aurora’ (1940), do polivalente Mário Lago.

Enquanto ‘Jardineira’ ardia, ‘As Pastorinhas’ apagavam o fogo com o compasso de uma marcha rancho de Noel Rosa e Braguinha gravada por Sílvio Caldas, em 1934. Vejam só, há 78 anos, e ainda hoje, se os axés da vida permitissem, faria o mesmo sucesso.

No mesmo tom, também do Noel, ‘Pierrot Apaixonado’, de 1935, e ‘Estrela do Mar’ (1952), na peculiar voz de Dalva de oliveira, Para os mais antigos, e olha que já faz 113 anos, quando se fala em ‘Ô Abre Alas’, o verdadeiro hino do Carnaval Brasil, muitos suspiram. E com certeza, tocada por um trio elétrico na Litorânea, levantaria até defunto. Claro que falar em ‘Pé de Anjo’ (1919), na voz do Chico Alves, ‘Meu Periquitinho Verde’ (1937), com a Dircinha Batista, é um deboche; parece coisa do outro mundo, mas não é, nem foi; foram marchinhas que ficaram na lembrança de muitos.

Bom, mas eu não sou tão velho assim, mas estas músicas todas eu cantei e cantei, e como todo ano tocava, eu cantava, dançava e delas sei.

Quando cheguei aqui em São Luís, a bordo do Maria Fumaça, prevaleciam as marchinhas e os sambas curtos, simples, ingênuos e sem nenhuma malícia. Foi uma década pródiga e áurea para o carnaval em clubes. Começávamos na sexta, ali na AABB, do lado dos Maristas, sábado já praticamente amanhecíamos na vesperal do Lítero, e a noite ficava para o Jaguarema. No domingo, tome vesperal no Lítero, emendado com sua festa noturna, seu baile mais tradicional. Na segunda, um dia difícil. Uma opção era o tradicional desfile de fantasias no Jaguarema, com seus nomes mais complicados, tipo ‘O Veado Dourado no Reino das Purpurinas’, coisa do Bezerra, uma farra! Claro que o bom gosto do Chico Coimbra e do Reynaldo Faray davam o tom de requinte a um desfile espetacular. A outra opção era o Casino, para romper a terça, no rabo de um cordão carnavalesco até o ali perto do Éden, onde foi a antiga sede do clube. Na terça, o dia todo no Lítero, mas à noite era indispensável o Clube dos Sargentos, mesmo com o rigor da fiscalização do cabo Princesa, que era duro na queda para quem não era sócio, ou militar, para amanhecermos o dia na Praça Duque de Caxias, ainda com disposição de montar a cavalo. Haja resistência. E no recheio disso tudo, os blocos de sujos na rabeira das ‘Escolas de Samba, filando peixe frito feito na hora que a Casinha da Roça distribuía de graça. Mas havia um motivo, as músicas.

Em 1960, ‘Fechei a porta’, ‘Me Dá Um Dinheiro Aí’; Em 1961, ‘A Lua é dos Namorados’. ‘Brigitte Bardot’, ‘Índio quer apito’, ‘Quero morrer no carnaval’; Em 1963, ‘Eu agora sou feliz’, ‘Pó-de-Mico’ e ‘Twist no Carnaval’.

O ano de 1964 foi o mais animado, ano da ditadura, as marchinhas e os sambas bombaram, comandavam a massa. Tinha o Moisés, estourando com ‘O Bigorrilho’; depois, ‘Cabeleira do Zezé’ e ‘Mulata Bossa Nova’ (J. Roberto Kelly) e ‘Marcha da Cegonha’, ‘Marcha do Remador’, lembram? (‘se a canoa não virar, olê, olê, olá, eu chego lá…’) e ‘Mulata Bossa Nova’. Em 1965, foram poucas: ‘A Canoa Virou’, ‘Na Onda do Berimbau’. Em 1966, ‘Triste Madrugada’, com o Jair Rodrigues, numa música, pasmem, do Wando, um eclético, – e ‘Vem Chegando a Madrugada’. Em 1967, melhorou e muito. Para tanto, basta lembrar a formidável música de Zé Ketty, ‘Máscara Negra’. Só esta bastaria, mas tem mais: ‘Tristeza’, cantada por Jair Rodrigues. Em 1968, Zé Ketty faz outro gol de placa: ‘Até Quarta-Feira’. Mas ainda teve Paulinho da Viola disputando com o samba que se sobrepôs ao carnaval e hoje é uma pérola da MPB: ‘Sei lá, Mangueira’. Em 1969, ‘Avenida Iluminada’. E fim da década.

Nesse ano, terminei o curso e viajei ao Rio. Quando regressei, o carnaval já não era o mesmo, mas havia esperança nos belíssimos sambas-enredo que naquela época se fazia, sem patrocínio nem as apoteoses de carne e isopor, alegorias ricas e corpos vulgares, expondo-se como mercadoria para leilão, para estrangeiros em busca, não de uma manifestação popular, porque mesmo já não é mais, mas de um turismo sexual barato e abundante.

De qualquer maneira, são dias de folia, menos de alegria, mais de desabafo, para se tentar esquecer as amarguras da vida. Que voltam nas cinzas da quarta.



Escrito por antonionoberto às 23h14
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VILA VELHA DE VINHAIS – A VILA ESQUECIDA

sex, 17/02/12 por leopoldovaz

TRAÇADO DA VIA EXPRESSA. VILA VELHA DE VINHAIS - 418 ANOS DE HISTÓRIA CONTADA A PARTIR DOS ELEMENTOS EUROPEUS. DOS INDIOS, IMEMORIAL - PELO MENOS 9 MIL ANOS DE OCUPAÇÃO DA ILHA ENCANTADA, A ILHA GRANDE DOS TUPINAMBÁ, UPAON-AÇÚ - ALDEIA DE UÇAGUABA/MIGAN VILLE - HOJE VINHAIS VELHO...

Desde que assumi o leme deste Blog tenho postado regularmente notícias sobre a Vila velha de Vinhais, o bairro esquecido de São Luis… recapitulando, habitada desde tempos imemoriais, primeiros pelos Tapuias – possívelmente Tremembé, pois existem noticias de que habitavam esta parte do ‘Norte”; escavações em Bacabeira – por conta da refinaria da Pedrobrás -, nos sambaquis da Maioba e do Anil – Antonio e Raimundo Lopes dão noticias de achados desde o principio do século passado, chegando a constituir a Colção do IHGM, no final dods anos 20 com o material coletado. Portanto, não se discute essa ancestralidade dos Tapuias; os Tupinambás chegam, segundo consta em Abbeville, em declaração de um antigo morador da Aldeia de Uçaguaba – ‘terra onde se come caranguejos’ – de que haviam chegado ali por volta de 1835 – 80 anos antes dos franceses. Abro um parenteses… Mamboré-Açú fala que chegaram 80 anos antes dos franceses, fica a dúvida se se refere a Daniel de LaTouche ou se de Jacques Riffaut, em 1594… creio ser essa a referencia, do primeiro contato, aqui na Ilha Encantada, com os franceses… Das 27 aldeias existentes na Ilha, 14 tinham apenas um Principal; 10 possuiam dois; 1 possuia três. Eussauap possuia quatro – “… é uma das maiores aldeias da ilha e nela existem quatro principais: Tatu-Açu; Cora-Uaçu ou Sola-Uaçu, às vezes também Maari-Uaçu; Taiacú e Tapire-Evire”. Junipar, a aldeia principal da ilha, contava com cinco principais. É em Eussauap (vale dizer, Uçaguaba/Miganville) que os franceses (de Daniel de LaTouche) encontram uma certa resistência, por parte de um velho “… de mais de 180 anos e que tinha por nome Mamboré-Uaçu …” e que havia assistido ao estabelecimento dos portugueses em Pernambuco. Afirmava que, como os perós, os franceses chegavam para comerciar, não passando mais do que 4 a 6 luas, tempo suficiente para reunir as drogas que traficavam. Tomavam suas filhas para mulher e isto muito os alegrava. Mais tarde afirmavam que havia necessidade de construção de fortes, para defesa sua e dos índios, e então chegavam os Paí – padres – plantando cruzes, instruindo os índios e os batizando. Exigem que as índias sejam batizadas, para só então as tomarem como esposas. Aí, dizem precisar de escravos para os servirem. E tomam os índios como seus escravos. O corsário frances Jacques Riffaut, com Charles de Vaux e Davi Migan como seus loco-tenentes, se estabelece mais junto dessa Aldeia, e sua feitoria é conhecida pelo nome de Miganville, do interprete Davi Migan; consta que outros franceses aqui se estabelecderam para comerciar com os índios (escambo), especialmente o pau-brasil. Vindos da região de Dieppe, Saint Malo, chegou a comportar cerca de 400 brancos, entre gauleses, flamengos, batavos, ingleses; outros comerciantes/navegadores também utilizavam do alojamento de Miganville, como um certo Capitão Guérard; o proprio De Piseusx passou a viver em Miganville/Uçaguaba, quando da chegada do Senhor de La Ravardiére. Fundada a França Equinocial, sairam De Rasilly, o Barão de Sancy e os padres D’ Abbeville e Arséne de Paris acompanhados de um antigo morador de Upapon-Açú, de nome David Migan, a visitar as aldeias da Ilha: ” (…) levaram-nos os índios, de canoa, até Eussauap, onde chegamos no sábado seguinte ao meio-dia. O sr. de Pizieux e os franceses que com ele aí residiam receberam-nos com grande carinho (…)”. (D’ABBEVILLE, 1975, p. 114). (grifos nossos). O que nos leva a inferir que a hoje Vila Velha de Vinhais, enquanto nucleo povoador e fundante da ‘nação maranhense’ precede à SãoLuís… Podemos estabelecer como sendo 1594 o inicio desse povoamento, por parte dos brancos. Façam os cálculos, muito mais que 400 anos, pois. Ao longo desse tempo, esteve sob diversas instancias administrativas, a partir da fundação da Colonia da França Equinocial, logo depois os jesuitas se estabelecem, criando a Aldeia da Doutrina, base de toda a evangelização ibérica no Maranhão – o que resultaria na expansão geográfica até o contraforte dos Andes, do Ceará até o mar caribenho – este o Estado Colonial do Maranhão, estabelecido em 1617 e implantado em 1621. E a Aldeia da Doutrina, a antiga Uçaguaba, com sua irmã gemea siamesa Miganville, se constituindo a base, o modelo administrativo que seria adotado na ocupação dos espaços, os Soldados de Loyola como pelotão de frente. Essa organização administrativa vai perdurar até 1757, com a expulsão dos jesuítas pelo Marques de Pombal, e a criação da Vila (Nova) de Vinhais; unidade administrativa, com os seus poderes instituídos e administração própria – seria um municipio, hoje – com seu Senado da Câmara, seus vereadores, seu Juiz de Paz, seu Chefe de Policia, enfim, toda a estrtura administrativa, independente de São Luis, esta eregida já em cidade. Em 1835 perde essa autonomia administrativa, passando a constiuir distrito eclesiástico de São Luís, e assim, um bairro… Cesar MARQUES (1970), em seu Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão, publicado em 1870, informa sobre Vinhais – freguesia e ribeiro, que os jesuítas Manoel Gomes e Diogo Nunes, que vieram junto com a armada de Alexandre de Moura, principiaram a estabelecer residências – ou missões de índios -, sendo a primeira que fundaram: “… foi a que deram o nome de Uçaguaba, onde com os da ilha da capital aldearam os índios, que tinham trazido de Permambuco, e como esta se houvesse de ser a norma das mais aldeias, diz o Padre José de Morais, nela estabelecessem todos os costumes , que pudessem servir de exemplo aos vizinhos e de edificações aos estranhos. [...] Cremos que por êste fim especial foi chamada aldeia da Doutrina. [...] Fundada pelos jesuítas, parece-nos haver depois passado ao poder do Senado da Câmara, porque ele tinha uma aldia ‘cujo sítio era bem perto da cidade’. [..] Compunha-se de 25 a 30 índios entre homens e mulheres ‘para poderem acudir às obras públicas pagando-se-lhes o seu jornal’. [...] “Em 12 de maio de 1698 a Câmara pediu ao soberano um missionário para educá-los. [...] “Em 22 desse mesmo mês representou à Sua Majestade queixando-se por ter sido privada desta aldeia ‘por algumas informações más e apaixonadas’. [...] “… foi no dia 1o. de agosto de 1757 elevada à categoria de vila com a denominação de Vinhais”. (p. 632-633). Mas a vida não se alterou; continuo como aldeamento indígena, até ser decretada a ‘extinção’ de seus primitivos habitantes (aquela lei de 1835…), aldeamento branco, até hoje. Vida própria, até hoje… Como a vila do Vinhais não apresentou qualquer desenvolvimento, foi extinta pela Lei Provincial no. 7, de 20 de abril de 1835, passando a perrtencer a frequesia à comarca da capital, formando o 5º distrito de paz, e tendo uma subdelegacia de Polícia, um delegado da Instrução Pública e uma cadeira pública de ensino primário para o sexo masculino. Suas terras eram excelentes, baixas, próprias para a plantação da cana-de-açúcar. Achando-se estabelecidas aí pequenas roças de arroz, mandioca e mais gêneros. Calculava-se o número de seus habitantes em 1.020, sendo 887 livres e os mais escravos (p. 633). Como já comunicado aquela Instituição através de mensagem eletrônica endereçada ao Sr. Julio Meirelles Steglich, Arqueólogo IPHAN/MA, referente à descoberta de objeto lítico no sítio acima referido, em uma residência pertencente ao Sr. Carlos Jacinto, situada em frente à Igreja de São João Batista: AT. JULIO MEIRELES – MATERIAL ARQUEOLÓGICO‏ Leopoldo Gil Dulcio Vaz Para iphan-ma@iphan.gov.br Julio, Estive em visita ao Vinhais Velho, ontem à tarde. Lá tomei conhecimento, através de um dos moradores – casa de muro branco, em frente à Igreja, não recordo o nome… – de que achara no quintal de sua casa um artefato – uma machadinha de pedra – provavelmente do período pré-colonial. Me preocupa, pois há uma construção de via – Via Expressa -, com passagem prevista pelo local em que o objeto foi encontrado, no mesmo sitio. As máquinas estão, já, aproximadamente 20/30 metros do terreno em que se localiza essa casa, caminhando nos dois sentidos, no de frente e pelos fundos, com a construção de uma ponte que chegará aos fundos. … Ali, nesse terreno, funciona uma granja, fácil de achar, pois… Pela urgência que o caso requer, sirvo-me desse expediente, correio eletrônico, para solicitar a presença, urgente, de equipe de arqueologia, tendo por base Portaria 230/2002 do próprio IPHAN, que protege sítios arqueológicos… Leopoldo Gil Dulcio Vaz Professor de Educação Física Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão vazleopoldo@hotmail.com 98 3226 2076 98 8119 1322 Rua Titânia, 88 – Recanto Vinhais O pedido de intervenção é decorrente da movimentação de terra na área ocupada pela Vila Velha de Vinhais – ou Vinhais Velho como também é conhecido aquele hoje bairro de São Luís. Embora as autoridades envolvidas na querela que se formou em torno da construção daquela Via Expressa – ou rodovia estadual, uma MA no entendimento do Governo do Estado – dão conta de que houve estudos para verificar a existência de sítios arqueológicos no traçado da rua, e que nada fora encontrado e, para todos os efeitos, apenas a Igreja de São João Batista e seu entorno é considerado bem tombado pelo Estado. Essa rotina veio a ser quebrada a partir da expansão urbana, inicada nos anos 70, culminando nestes tempos com a polemica Via Expressa/Rodovia que se está a construir, cortando o Vinhais Velho ao meio… O que chamou a atenção da população de São Luis, é a resistencia dos moradores a mais um ataque a seu Patrimonio Cultural. Como Mamboré-açú, diante dos franceses que queriam aqui estabalecer uma Colonia, os seus descendentes se insurgem, bradam, desafiam… Diante do Relatório EIA/RIMA de impacto ambiental, em que a douta Arqueóloga contratada para fazer a propespecção do seu subsolo, declarando não haver indicios de ocupação humana (sic), e desconhecendo totalmente a História da Vila Velha de Vinhais, em seus 418 de História – sem contrar a dos pertencentes ao Macro-filo Jê, possivelmente Tremembé – consta estaram zanzando por aqui há pelo menos 9 mil anos dos tempos atuaias; dos Tupinambás, do inicio dos 1500, dos portugueses, da expedição Barros/Cunha e sua Vila de Nazaré, de Riffut, Vaux, Migan, Guérard, e do proprio Daniel de LaTouche e seus companheiros de aventura fracassada, dos portugues do Albuquerque, e toda nossa reica História Colonia, Imperial e Republicana… não há indícios de ocupação humana, seja, não conseguiu ver/descobrir nada!!! Mas por isso, agora? Porque ontem acompanhei o Dr. Julio Meirelles, Arquólogo-chefe do IPHAN/Superintendeica do Maranhão a uma rápida expedição ao sitio arqueológico com suas veias abertas, rasgado pela futura Rodovia Estadual – A MA/Via Expressa – e em cerca de 45 minutos os olhos experientes de anos de trabalho em defesa do Patrimonio Arqueologico brasileiro, encontrou inumeras peças, à flor do solo, nas terras remexidas pelos tratores e fúria dos homens encarregados de abrir aquela estrada, o Sr. Max Barros à frente… MATERIAL ARQUEOLÓGICO RETIRADO DO LEITO DA VIA EXPRESSA NO DIA 16 DE FEVEREIRO DE 2012, ENTRE 09:00 E 09:45 HORAS, EXPEDIÇÃO COMANDADA PELO ARQUEOLOGO DO IPHAN JULIO MEIRELLES, DA QUAL FIZ PARTE, E CONSTITUÍDO EM TESTEMUNHA DOS ACHADOS E SUA COLETA PELO IPHAN. FOTO DE CARLOS JACINTHO, AUTORIZADA. Impressionante a capacidade técnica do Dr. Julio; a medida em que ia encontrado as várias peças que recolheu, nessa rápida passagem, as identificava, inclusive com a época provável: este instrumento certamente é indígena, e servia para tecer o algodão, note o furo no meio, impressionante sua conservação; certamente uma peça raríssima e importante… dizia de uma peça; de outro caco ceramico, identificava um pote, chamando antenção para a policromia, a tinta vermelha utilizada; de outra, os desenhos ainda visiveis, e que melhoraria após a limpeza, magnifico exemplo; esta é uma louça inglesa, pelos desenhos que apresenta (disse o nome, complicado para um leigo), mas certamente chegada, este tipo e desenho, àépoca da chegada da familia reaal ao Brasil; certamente essa peça é do inicio dos 1800, duas primeiras décadas; esta já é mais velha, portuguesa, note o azul ( não entendi o nome…)… OBJETO INDIGENA ENCONTRADO DURANTE A EXPEDIÇÃO DE 16 DE FEVEREIRO DE 2012, EXECUTADA PELO IPHAN, TENDO O DR. JULIO MEIRELLES À FRENTE. TESTEMUNHEI O ACHADO. SERIA TUPINAMBÁ? TREMEMBÉ? CERTAMENTE PRÉ-COLONIAL. E A DOUTA ARQUEOLOGA CONTRATADA NÃO VIU NADA NA ÁREA. ESTAVA NO MONTURO DE TERRA, RETIRADA DO LEITO DA VIA EXPRESSA... ALGUNS CACOS ENCONTRADOS. DOIS DELES NO QUINTAL DA CASA DO SR. BINOCA - QUEM LEMBRA DO MOCOTÓ DO BINOCA? - JÁ DERRUBADA. ESTAVAM JUNTOS À PAREDE. UM RÁPIDO OLHAR E LÁ ESTAVAM AS PEÇAS. ESTAVA AO LADO DO DR. JULIO E CONFESSO QUE NÃO 'VÍ'. IDENTIFICOU COMO DE ORIGEM INGLESA, COM DATA PROVAVEL, PELAS CARACTERÍSTICAS E DESENHOS, DA EPOCA DA CHEGADA DA FAMILIA REAL - PRIMEIRA DECADA DOS 1800. ISSO, NUMA RÁPIDA ANÁLISE. COMO TODO CIENTISTA, NÃO AFIRMOU: DISSE 'PROVÁVEL', UMA ANALISE MAIS ACURADA EM LABORATÓRIO CONFIRMARÃO, OU NÃO, A PRIMEIRA IMPRESSÃO... COMO A EXPERIENTE ARQUEÓLOGA CONTRADA NÃO VIU? CLARO, PODE JUSTIFICAR QUE ESTAVA EMBAIXO DA CASA DEMOLIDA, MAS SEMANA PASSADA, QUARTA E QUINTA, ESTEVE NOVAMENTE NO LOCAL, CERTAMENTE A MANDO DO VICE-GOVERNADOR... Como disse, a ida do Dr. Julio é decorrente de comunicação que fizemos semana passada ao IPHAN através de correspondencia eletronica: Como já comunicado aquela Instituição através de mensagem eletrônica endereçada ao Sr. Julio Meirelles Steglich, Arqueólogo IPHAN/MA, referente à descoberta de objeto lítico no sítio acima referido, em uma residência pertencente ao Sr. Carlos Jacinto, situada em frente à Igreja de São João Batista: AT. JULIO MEIRELES – MATERIAL ARQUEOLÓGICO‏ Leopoldo Gil Dulcio Vaz Para iphan-ma@iphan.gov.br Julio, Estive em visita ao Vinhais Velho, ontem à tarde. Lá tomei conhecimento, através de um dos moradores – casa de muro branco, em frente à Igreja, não recordo o nome… – de que achara no quintal de sua casa um artefato – uma machadinha de pedra – provavelmente do período pré-colonial. Me preocupa, pois há uma construção de via – Via Expressa -, com passagem prevista pelo local em que o objeto foi encontrado, no mesmo sitio. As máquinas estão, já, aproximadamente 20/30 metros do terreno em que se localiza essa casa, caminhando nos dois sentidos, no de frente e pelos fundos, com a construção de uma ponte que chegará aos fundos. … Ali, nesse terreno, funciona uma granja, fácil de achar, pois… Pela urgência que o caso requer, sirvo-me desse expediente, correio eletrônico, para solicitar a presença, urgente, de equipe de arqueologia.

http://colunas.imirante.com/platb/leopoldovaz/2012/02/17/vila-velha-de-vinhais-a-vila-esquecida/



Escrito por antonionoberto às 14h28
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O CASO DA ELOÁ - UMA CHATEAÇÃO QUE NÃO ACABA

*Antonio Noberto

Todo mundo chama CASO ELOÁ, prefiro chamar de O CASO DA ELOÁ, pode ser também O CAUSO... ou qualquer outra coisa. O certo é que o CASO já está rendendo demais. Em todo o noticiário é o que se vê. Lembra outra tragédia, a da menininha Isabela Nardoni, que ocupou a pauta jornalística por muito tempo. De olho na página inicial do meu Facebook vi aquela pergunta no Status "No que vocês está pensando?". No que estou pensando? Ora, eu e quase todo o Brasil só pensa nessa bobagem, porque a mídia só fala nisso. É o dia todo, nos canais abertos e fechados, é só isso. Sendo assim, concordando com o adágio "Se não pode com ele junge-se a ele", resolvi escrever este pequeno comentário na minha página inicial.

O CASO foi uma sucessão de erros das diversas partes (envolvidas ou não): da polícia, da imprensa (que ficou dando gás ao bandido e assassino), da família, das pessoas que estiveram no local, da sociedade, da amiga dela (que aceitou retornar ao local e levou tiro quase fatal), da advogada do bandido (que se acha - mas está "mais perdida que cego em tiroteio").

O título do artigo não é sem razão. A relação da vítima com seu algoz, ops, seu namorado, não era algo lícito, permitido, legal. Ao contrário, prática vedada pela legis, a Carta Magna, pois ela era menor de idade quando começaram a se relacionar, tinha apenas 12 anos e ele 19. E tudo seguiu errado em razão da desagregação familiar iniciada pela vida bandida do pai da garota. O desfecho, ninguém duvide, tem origem na ausência de regras na casa. O pai não tinha moral para cobrar nada dos filhos, vez que é assassino contumaz. Ambos (Eloá e o namorado) foram acostumados apenas com o SIM. Não foram ensinados com a frustração. Nunca disseram a eles que a vida é um misto de dor e prazer, e quando um destes deixa de existir as coisas podem desandar.

A polícia errou feio pela incompetência. Não isolou devidamente a área da ocorrência e, assim, os jornalistas deitaram e rolaram. Não desligou a comunicação telefônica quando ele falava com os programas jornalísticos sensacionalistas. A invasão  do apartamento foi, em parte, patética. Por outro lado, se a polícia age através de um do atirador de elite e mata o bandido, o causo, provavelmente descambaria para outro lado, e a polícia seria culpada por ter posto fim "a uma brincadeira de dois adolescentes apaixonados". O brasileiro, para o bem e para o mal, é assim, bonzinho demais, perdoa tudo e, com isto, acaba fazendo o mal a si mesmo.

Advogada do bandido confesso (e precisava confessar?), sem argumento e tendo uma multidão de fatos que incriminam seu cliente 0800, excede o jus esperniandi (direito de espernear). Culpa a imprensa e a polícia, agride a promotoria, a juíza, a turba, etc., em uma tentativa vã e desesperada de contradizer o que "nossos olhos viram e ouviram". Talvez tivesse mais futuro se, aproveitando aqueles míseros e enfadonhos dias de fama, tentasse fechar um contrato com a Play Boy ou a VIP. Mas não sei se ganharia muito com isso.

O que o O CASO DA ELOÁ serve é para referendar o sucesso daquilo que os reality shows no Brasil perseguem: despertar e aguçar os sentimentos mais primitivos da população que são a curiosidade com a vida alheia, o culto à vitrine e o despertar dos hormônios sexuais. Nada de massa cinzenta, cérebro, de racionalização, método, sistemática, estudo, capacitação, produção de conhecimento, etc. Nadica de nada, pois isto é coisa de gente besta do hemisfério Norte. Tadinho do nosso povo. Não bastassem a ilusão do marketing que os incentiva a consumir, consumir, consumir, e o 171 da maioria dos políticos, ainda são conduzidos a shows realidade deste tipo.Eloá, como tantas outras pequenas brasileiras, foi, literalmente, vítima do mundo de ilusão, do mundo sem dor e sem NÃOS. 

A turba está saciada, pois o monstro" (que não deixa de ser vítima, pois também foi enganado pela bela historinha do mundo perfeito, sem traumas e frustrações), o CASO DA ELOÁ, recebeu o castigo que merece, vai apodrecer na cadeia. 

A ELOÁ e o CASO dela é apenas mais uma história trágica entre tantas outras que o brasileiro ficou viciado em ver e ouvir, a final, ele é incentivado desde berço com as tragédias das músicas infantis - O cravo brigou com a rosa, atirei o pau-no-gato, Boi-da-cara-preta pega essa menina que tem medo de careta, eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marcha soldado cabeça de papel se não marchar direito..., etc. -  que o incentivam a viver em um permanente estágio semi-selvagem. Se nenhum governante herói fizer nada para mudar esta realidade corremos o risco de sair do estágio de semi-selvagens e assumirmos nosso estágio inicial de Neandhertais (50.000 a.C.), a final, somos descendente destes.

*Sócio-efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão.

 



Escrito por antonionoberto às 20h41
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Documentário Memória de Pedra registra arqueologia pré-colonial em São Luís

A produção faz uma reflexão sobre os primeiros índios que habitavam o Maranhão.

Divulgação
06/02/2012 12h41

SÃO LUÍS - O documentário Memória de Pedra, do jornalista e historiador, Marcus Saldanha, será lançado nesta terça-feira (7), às 19h30, no Cine Praia Grande. A produção retrata a arqueologia pré-colonial da Ilha de São Luís e aborda a questão do patrimônio arqueológico, no ano de comemoração dos 400 anos da fundação da cidade.

No formato documentário, a produção conta a história dos povos pré-colombianos por meio dos depoimentos de especialistas e da comunidade que vive próximo aos sítios sambaquis - áreas onde viviam os “empilhadores de conchas”, muito antes dos europeus e dos povos tupis-guaranis chegarem ao Maranhão. “A ideia é fazer refletir sobre o passado e reconhecer-se no machado de pedra (pedra de raio, pedra de corisco), seu ‘eu’ ancestral, muito anterior aos 400”, explica Marcus Saldanha.

O historiador conta que a ideia da produção era documentar o acervo pré-colonial maranhense, mas, por falta de recursos, circunscreveu o filme à Ilha de São Luís. “Estamos às vésperas dos 400 anos de fundação da cidade e o documentário foca na discussão sobre memória, identidade e patrimônio, a partir do conhecimento e valorização do acervo arqueológico existente na Ilha, que nem sempre é respeitado e preservado”, ressalta.

O vídeo conta com depoimentos do antropólogo e professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Alexandre Fernandes Corrêa; do arqueólogo e diretor do Centro de Arqueologia do Museu de História Natural e Arqueologia do Maranhão, Deusdédit Leite, e Eliane Leite, responsável pelo setor de Educação Patrimonial do Museu Histórico e Artístico do Maranhão. Além desses, o documentário traz depoimentos do jornalista e poeta, Paulo Melo Sousa; da superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Maranhão, Kátia Bogéa, e dos moradores de áreas próximas aos sítios sambaquis, da Ilha de São Luís.

Sobre os paleoíndios

Foram os primeiros habitantes da Ilha de São Luís. Eles chegaram seguindo o curso dos rios, na busca de alimentos, seja de caça, coleta ou pesca. Os primeiros vestígios destes povos datam nove mil anos e foram desenterrados em Centro Novo do Maranhão. Por milhares de anos, estes paleoíndios ocuparam o que viria a ser o Maranhão.

Na ilha de São Luís, há pelo menos seis sítios arqueológicos. O mais estudado fica no Sítio do Físico, no Parque Estadual do Bacanga, que já foi escavado por vários grupos de arqueólogos.

Graças ao trabalho minucioso de profissionais da Arqueologia e História é possível reconstruir parte deste acervo a partir de artefatos de pedra, utensílios de cerâmica e restos do que, um dia, foi moradia desses seres humanos.

http://imirante.globo.com/noticias/2012/02/06/pagina298378.shtml



Escrito por antonionoberto às 21h27
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Nosso mapa Saint-Louis capitale de la France Equinoxiale foi publicado em Paris

Foi publicado na França em dezembro último o livro Les français au Brésil: La Ravardière et la France Equinoxiale, 1612 - 1615 (os franceses no Brasil: La Ravardière e a França Equinocial, 1612 - 1615), dos escritores Lucien Provençal e Vasco Mariz. O trabalho é, na verdade, uma nova edição, e traz algumas novidades, entre elas a publicação na capa do nosso mapa SAINT-LOUIS CAPITALE DE LA FRANCE EQUINOXIALE, 1615

Trabalho desenvolvido pelo pesquisador e escritor Antonio Noberto, com desenho e arte do artista gráfico Jonilson Bruzacca. Participaram também os arqueólogos Deusdedith Leite Filho e Eliane Gaspar, o historiador Rodrigo Norte (UFMA), o Cônsul Honorário da França no Maranhão, José Jorge Leite Soares, o escritor e diplomata brasileiro Vasco Mariz, o Diretor da Aliança Francesa de São Luís, Nicolas Payelle e a escritora Joana Bittencourt.

O mapa é uma reconstituição do que foi possível levantar de tempos tão remotos da Ilha do Maranhão. A primeira fotografia da nascente São Luís, lócus principal de atuação francesa no Brasil Setentrional, de onde partiam ações e expedições para os mais diversos lugares. Os dados foram levantados a partir de um trabalho acurado em fontes primárias e secundárias: livros, mapas, documentos da época – geralmente cópias da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, transcrições de documentos deste período, que se encontram em museus da Europa, além de visitas, pesquisas in loco nos pontos destacados nesta reconstituição e de entrevistas a personalidades que se dedicam ao estudo deste capítulo inicial da história do Maranhão.

No dizer de um pesquisador maranhense: “Um belo mapa para um belo capítulo da história colonial brasileira”. 

 



Escrito por antonionoberto às 13h48
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“Cuidado com os burros motivados”

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Observador contumaz das manias humanas, Roberto Shinyashiki está cansado dos jogos de aparência que tomaram conta das corporações e das famílias. Nas entrevistas de emprego, por exemplo, os candidatos repetem o que imaginam que deve ser dito. Num teatro constante, são todos felizes, motivados, corretos, embora muitas vezes pequem na competência. Dizem-se perfeccionistas: ninguém comete falhas, ninguém erra. Como Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) em Poema em linha reta, o psiquiatra não compartilha da síndrome de super-heróis. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida (…) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe”, dizem os versos que o inspiraram a escrever o livro  Heróis de verdade. Farto de semideuses, Roberto Shinyashiki faz soar seu alerta por uma mudança de atitude. “O mundo precisa de pessoas mais simples e verdadeiras.”

Quem são os heróis de verdade?

Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

O sr. citaria exemplos?

Dona Zilda Arns, que não vai a determinados programas de tevê nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões de pessoas. Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”. É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

Qual o resultado disso? 

Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

Por quê?

O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

Há um script estabelecido?

Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente
de multinacional no programa O aprendiz? “Qual é seu defeito?” Todos
respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: “Eu mergulho de
cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar.” É exatamente o que o chefe
quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado
ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma
forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma das maiores empresas do planeta me disse: “Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir.” Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?

Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

Está sobrando auto-estima?

Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parece que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: “Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham.” Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

O conceito muda quando a expectativa não se comprova?

Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

É comum colocar a culpa nos outros?

Sim. Há uma tendência a reclamar, dar desculpas e acusar alguém. Eu vejo as pessoas escondendo suas humanidades. Todas as empresas definem uma meta de crescimento no começo do ano. O presidente estabelece que a meta
é crescer 15%, mas, se perguntar a ele em que está baseada essa expectativa, ele não vai saber responder. Ele estabelece um valor aleatoriamente, os diretores fingem que é factível e os vendedores já partem do princípio de que a meta não será cumprida e passam a buscar explicações para, no final do ano, justificar. A maioria das metas estabelecidas no Brasil não leva em conta a evolução do setor. É uma chutação total.

Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?

Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: “Quem decidiu publicar esse livro?” Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?

O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?

A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais. A segunda loucura é: “Você tem de estar feliz todos os dias.” A terceira é: “Você tem que comprar tudo o que puder.” O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: “Você tem de fazer as coisas do jeito certo.” Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você precisa ser feliz tomando sorvete, levando os filhos para brincar.

O sr. visita mestres na Índia com freqüência. Há alguma parábola que o sr. aprendeu com eles que o ajude a agir?

Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: “Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero ser feliz.” Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis. Uma história que aprendi na Índia me ensinou muito. O sujeito fugia de um urso e caiu em um barranco. Conseguiu se pendurar em algumas raízes. O urso tentava pegá-lo. Embaixo, onças pulavam para agarrar seu pé. No maior sufoco, o sujeito olha para o lado e vê um arbusto com um morango. Ele pega o morango, admira sua beleza e o saboreia. Cada vez mais nós temos ursos e onças à nossa volta. Mas é preciso comer os morangos.

Entrevista publica na Revista IstoÉ de 19 de Outubro de 2005 



Escrito por antonionoberto às 06h37
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